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Raízen, Braskem e o ciclo de reestruturações: o que os deals da quinzena revelam sobre o mercado de M&A

BRAZIL 12 min read
Author
Joseph Kalim

Uma quinzena que poderia ter passado despercebida, mas entrega mais do que parece. Os três deals de destaque apresentam o mesmo fenômeno: o mercado de reestruturação está em plena atividade, e os ativos estão trocando de mão no ritmo que a necessidade impõe.

O fio condutor da edição está dado: juro alto, balanço apertado e a conta chegando para quem postergou o inevitável.

Quer mais insights do backstage do M&A brasileiro? Se conecte comigo no LinkedIn e vamos conversar. 

Boa leitura.



Deals breakdown

Curadoria entre 26 de maio a 8 de junho.

Deals identificados: 16

DealIndustrySeller/CounterpartyBuyer/Investor
01

Previ vende torres do WTorre Nações Unidas para fundo imobiliário do Safra e avança desinvestimento imobiliário

Real Estate

Previ

Fundo imobiliário Safra

02

Supero compra portuguesa Orling e acelera estratégia de expansão tecnológica entre Brasil e Europa

TMT

Supero

Orling

03

Alper compra corretora Ritacco e acelera plano de consolidar mercado de benefícios com mais seis aquisições em 2026

Services

Grupo Ritacco (Matteo Puosso Ritacco)

Alper

04

Grupo João Santos vende jazida de calcário por BRLm 250 para acelerar desalavancagem na recuperação judicial

Industry

Grupo João Santos

Votorantim Cimentos

05

Accor investe BRLm 300 na Mata Holding para criar plataforma global de hospitalidade liderada por Alex Allard

Services

Alex Allard (permanece controlador)

Accor (50M EUR, stake minoritário)

06

AD Ports compra CLI por USDm 835 e estreia na América Latina com aposta em logística de grãos e açúcar

Infrastructure

IG4 Capital e Macquarie Asset Management

AD Ports Group

07

Com apoio da Advent, Skyone compra Add IT e acelera plano de até seis aquisições em dois anos

TMT

Sócios fundadores (permanecem na operação)

Skyone (apoio Advent International)

08

Vêneto compra participação na FC Partners para ampliar oferta de M&A e governança a empresas familiares

Services

FC Partners

Vêneto

09

Azevedo & Travassos vende 10% da Rota Verde Goiás para JiveMauá por BRLm 34 e reforça estratégia de reciclagem de capital

Infrastructure

Azevedo & Travassos

JiveMauá

10

Raízen vende operação na Argentina por USD 1,4 bi à Mercuria para reduzir alavancagem e simplificar portfólio

Agribusiness

Raízen

Mercuria Energy

11

Cemig SIM compra 11 usinas solares por BRLm 155 para expandir geração distribuída em Minas Gerais

Energy

Não identificado

CEMIG

12

Padtec compra LEV Brasil e cria unidade para expandir atuação em infraestrutura submarina e redes costeiras

Infrastructure

Antonio Badagola (fundador, retém 15%)

Padtec

13

RedeCompras compra operações do Brasil Atacarejo na Paraíba e amplia presença no varejo alimentar do estado

Consumer

Brasil Atacarejo

RedeCompras

14

Perea Capital revela participação de 15% na Viveo e se torna um dos maiores acionistas da companhia

Healthcare/Pharma

Viveo

Perea Capital

15

Senior Sistemas adquire Forbiz por BRLm 62,1 e reforça presença no Paraná ao integrar canal Diamante de distribuição em Curitiba

Services

Forbiz

Senior Sistemas

16

GGRC11 adquire ativo last mile em Diadema (SP) com yield de 17,2% a.a., reforçando estratégia de logística urbana.

Real Estate

Não identificado

GGRC11


Capital estrangeiro, juros nas máximas e software em colapso: a semana que resume o ciclo

A semana foi pesada para quem apostava na queda dos juros. BTG, XP e Barclays revisaram para cima suas projeções para a Selic, que agora convergem para 14% ao fim do ano. O ciclo de cortes, que parecia garantido, encolheu para apenas mais dois ajustes de 0,25 ponto.

O gatilho foi uma combinação conhecida: núcleos de inflação deteriorando, atividade resiliente demais e o choque do petróleo ainda sem resolução. Some a isso a expectativa de redução da jornada de trabalho como estímulo fiscal e o mercado simplesmente não quis mais “ficar doado”, nas palavras de um diretor de tesouraria. Juros futuros nas máximas do ano.

  • Andrea Damico, da BuysideBrazil, resume bem: a trajetória de juros mais alta virou necessidade para garantir a convergência da inflação à meta. 
  • Roberto Secemski, do Barclays, vai além: o BC pode ser forçado a parar antes do esperado.

Do outro lado do Atlântico, o mercado de crédito americano tem sua própria crise silenciosa. O pool de empréstimos distressed em software nos EUA atingiu USD 40,5 bi em março, quase quatro vezes o valor de dezembro. O setor responde por 40% de todos os loans abaixo de 80 cents on the dollar, apesar de ter apenas 13% do índice geral.

O diagnóstico é direto: a IA está destruindo modelos de negócio de software legado e o mercado de crédito precificou isso antes dos balanços. O spread entre software e não-software saltou de 217 bps em dezembro para quase 850 bps em fevereiro. Nenhum earnings report confirmou a magnitude do dano ainda. O que vem pela frente nos próximos trimestres pode ser revelador.

Raízen, Braskem e o preço da alavancagem num mundo de juro alto

Se os números de recuperações judiciais já assustam no agregado, os casos individuais colocam em perspectiva o que está por vir. O Brasil terminou 2025 com 2.466 CNPJs em RJ, recorde da série, segundo a Serasa Experian. E o ambiente de Selic em 14% não vai ajudar quem já estava no limite.

A Raízen carregava BRL 75,3 bi em dívida total ao fim de março de 2026, com BRL 65,4 bi incluídos num processo de recuperação extrajudicial, que se tornou o maior do país. O plano prevê a separação em dois negócios distintos, Raízen Combustíveis e Raízen Energia, para isolar os perfis de risco e limpar os balanços. É uma reestruturação de manual, mas o custo financeiro já havia devorado a geração de caixa antes de qualquer solução chegar.

A Braskem não saiu barata. A alavancagem corporativa atingiu 14,7x o EBITDA, o patrimônio líquido ficou negativo em BRL 16,5 bi e o próprio CFO admitiu: “não há discussão sobre a necessidade de fazer uma reestruturação.” Com vencimentos de bonds a partir de julho, a empresa negocia suporte de credores para uma recuperação extrajudicial. Se o apoio não vier, uma RJ formal não está descartada.

Dois gigantes, mesma doença: alavancagem construída em ciclo de juro baixo que encontrou uma Selic que não quer ceder. O BC sob pressão para pausar os cortes, o mercado de crédito reprecificando risco em tempo real e empresas que apostaram no juro curto pagando a conta no juro longo. O cenário de 2025 que parecia controlado virou, em 2026, um teste de estresse real para balanços que nunca foram construídos para aguentar CDI em 14% por tempo indeterminado. Quem não reestruturou quando tinha fôlego, agora se reestrutura na marra.


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