Uma quinzena que poderia ter passado despercebida, mas entrega mais do que parece. Os três deals de destaque apresentam o mesmo fenômeno: o mercado de reestruturação está em plena atividade, e os ativos estão trocando de mão no ritmo que a necessidade impõe.
- A Raízen vendeu sua operação de downstream na Argentina para a Mercuria Energy por USD 1,42 bi. Um bom ativo, um timing ruim. Refinaria, lubrificantes e postos Shell num país que nunca foi fácil de operar, saindo pelo preço que o processo de recuperação extrajudicial permite negociar. Desinvestimento necessário, não estratégico.
- A Cemig SIM foi na direção oposta e comprou. Onze usinas fotovoltaicas no norte de Minas por BRLm 155, 26 MWp de capacidade instalada. Movimento limpo e dentro do planejamento. Em uma quinzena dominada por reestruturação, é refrescante ver uma aquisição que simplesmente faz sentido.
- O Grupo João Santos fechou a venda de uma jazida de calcário em Ribeirão Grande por BRLm 250. A última grande reserva disponível no estado para uma fábrica de cimento, preservada por anos como opção estratégica para o maior mercado consumidor do país, foi para o bloco para reforçar caixa no processo de RJ. Quando se vende a opcionalidade, é porque não há mais margem para esperar.
O fio condutor da edição está dado: juro alto, balanço apertado e a conta chegando para quem postergou o inevitável.
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Boa leitura.

Deals breakdown
Curadoria entre 26 de maio a 8 de junho.
Deals identificados: 16
Capital estrangeiro, juros nas máximas e software em colapso: a semana que resume o ciclo
A semana foi pesada para quem apostava na queda dos juros. BTG, XP e Barclays revisaram para cima suas projeções para a Selic, que agora convergem para 14% ao fim do ano. O ciclo de cortes, que parecia garantido, encolheu para apenas mais dois ajustes de 0,25 ponto.
O gatilho foi uma combinação conhecida: núcleos de inflação deteriorando, atividade resiliente demais e o choque do petróleo ainda sem resolução. Some a isso a expectativa de redução da jornada de trabalho como estímulo fiscal e o mercado simplesmente não quis mais “ficar doado”, nas palavras de um diretor de tesouraria. Juros futuros nas máximas do ano.

- Andrea Damico, da BuysideBrazil, resume bem: a trajetória de juros mais alta virou necessidade para garantir a convergência da inflação à meta.
- Roberto Secemski, do Barclays, vai além: o BC pode ser forçado a parar antes do esperado.
Do outro lado do Atlântico, o mercado de crédito americano tem sua própria crise silenciosa. O pool de empréstimos distressed em software nos EUA atingiu USD 40,5 bi em março, quase quatro vezes o valor de dezembro. O setor responde por 40% de todos os loans abaixo de 80 cents on the dollar, apesar de ter apenas 13% do índice geral.

O diagnóstico é direto: a IA está destruindo modelos de negócio de software legado e o mercado de crédito precificou isso antes dos balanços. O spread entre software e não-software saltou de 217 bps em dezembro para quase 850 bps em fevereiro. Nenhum earnings report confirmou a magnitude do dano ainda. O que vem pela frente nos próximos trimestres pode ser revelador.
Raízen, Braskem e o preço da alavancagem num mundo de juro alto
Se os números de recuperações judiciais já assustam no agregado, os casos individuais colocam em perspectiva o que está por vir. O Brasil terminou 2025 com 2.466 CNPJs em RJ, recorde da série, segundo a Serasa Experian. E o ambiente de Selic em 14% não vai ajudar quem já estava no limite.
A Raízen carregava BRL 75,3 bi em dívida total ao fim de março de 2026, com BRL 65,4 bi incluídos num processo de recuperação extrajudicial, que se tornou o maior do país. O plano prevê a separação em dois negócios distintos, Raízen Combustíveis e Raízen Energia, para isolar os perfis de risco e limpar os balanços. É uma reestruturação de manual, mas o custo financeiro já havia devorado a geração de caixa antes de qualquer solução chegar.
A Braskem não saiu barata. A alavancagem corporativa atingiu 14,7x o EBITDA, o patrimônio líquido ficou negativo em BRL 16,5 bi e o próprio CFO admitiu: “não há discussão sobre a necessidade de fazer uma reestruturação.” Com vencimentos de bonds a partir de julho, a empresa negocia suporte de credores para uma recuperação extrajudicial. Se o apoio não vier, uma RJ formal não está descartada.
Dois gigantes, mesma doença: alavancagem construída em ciclo de juro baixo que encontrou uma Selic que não quer ceder. O BC sob pressão para pausar os cortes, o mercado de crédito reprecificando risco em tempo real e empresas que apostaram no juro curto pagando a conta no juro longo. O cenário de 2025 que parecia controlado virou, em 2026, um teste de estresse real para balanços que nunca foram construídos para aguentar CDI em 14% por tempo indeterminado. Quem não reestruturou quando tinha fôlego, agora se reestrutura na marra.
Brasil
Agronegócio
Consumo
Energia
FIG
Controvérsias
Fundos
- Möbius lança fundo de crédito estruturado e mira captação de até BRL 1 bi em meio à alta das reestruturações
- Kinea lança fundo de BRL 1,9 bi com Brookfield para apostar no mercado de aluguel residencial
- Kaszek prepara novo fundo de venture capital após investir USDm 540 em startups da América Latina
Tendências de Mercado
Intenções e Estratégias
Healthcare/Pharma
Industria
Infraestrutura
Controvérsias
Intenções e Estratégias
- Iguá faz aumento de capital de BRLm 700 para disputar nova onda de concessões de saneamento
- Aegea se une a Equipav, Itaúsa e GIC em proposta para assumir controle da Copasa
- Copasa revisa termos da privatização após propostas de Equatorial e consórcio liderado pela Aegea
- Copasa fixa piso de R$ 47,23 por ação e mantém privatização mesmo sem acionista de referência
- Após turnaround, Constellation retoma crescimento, migra para bolsa principal de Oslo e prevê USDm 100 em dividendos
- Equatorial supera Aegea e oferece BRL 7,95 bi para se tornar acionista de referência da Copasa
- ANTT destrava relicitação da Malha Oeste com projeto de BRL 89 bi e leilão previsto para 2026
- Aena aguarda aval do Cade para assumir Galeão após vencer leilão de BRL 2,9 bi
M&A
- AD Ports compra CLI por USDm 835 e estreia na América Latina com aposta em logística de grãos e açúcar
- Azevedo & Travassos vende 10% da Rota Verde Goiás para JiveMauá por BRLm 34 e reforça estratégia de reciclagem de capital
- Padtec compra LEV Brasil e cria unidade para expandir atuação em infraestrutura submarina e redes costeiras
Real Estate
Intenções e Estratégias
M&A
Serviços
Fundraising
- Vammo capta BRLm 75 com EXT Capital para expandir frota de motos elétricas em São Paulo
- Grex recebe aporte de BRL 200 mil de João Brognoli e acelera plano de expansão nacional e internacional
M&A
- Alper compra corretora Ritacco e acelera plano de consolidar mercado de benefícios com mais seis aquisições em 2026
- Accor investe BRLm 300 na Mata Holding para criar plataforma global de hospitalidade liderada por Alex Allard
- Vêneto compra participação na FC Partners para ampliar oferta de M&A e governança a empresas familiares
- Senior Sistemas adquire Forbiz por BRLm 62,1 e reforça presença no Paraná ao integrar canal Diamante de distribuição em Curitiba
TMT
Tendências de Mercado
- Agtechs atraem capital, mas 70% dos aportes seguem concentrados nos mercados locais
- IA cria “SaaSpocalypse” e divide mercado entre vencedores e empresas em risco de obsolescência
- Incerteza sobre impacto da IA derruba M&As de software ao menor nível desde a pandemia
- Santander vê América Latina como aposta em IA e destaca Nubank, Itaú, Totvs e Globant entre os beneficiários da tendência
Intenções e Estratégias
Fundraising
- Pax emerge do anonimato com rodada seed de USDm 40 para levar IA ao combate ao crime
- Strattum capta USDm 3,2 para estruturar dados corporativos e acelerar adoção de IA nas empresas
M&A
- Supero compra portuguesa Orling e acelera estratégia de expansão tecnológica entre Brasil e Europa
- Com apoio da Advent, Skyone compra Add IT e acelera plano de até seis aquisições em dois anos
- Com apoio da Advent, Skyone faz maior aquisição de sua história e acelera consolidação em infraestrutura de nuvem
Joseph Kalim