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Inadimplência corporativa no Brasil e M&A em 2026

Brazil 18 min read
Author
Luca Rossi

O Teaser Brasil está de volta, depois de uma breve pausa por conta do carnaval. 

Hoje, trazemos dados sobre a inadimplência corporativa no Brasil (que entrou em 2026 em patamar recorde). Foram 8,9 milhões de empresas negativadas e mais de BRL 210 bi em dívidas. Uma das reações para esse movimento é mais renegociação, mas reestruturação e maior protagonismo do equity como instrumento de desalavancagem.

Ao mesmo tempo, o mercado global de crédito começa a refletir sinais mais claros de estresse, com defaults em leveraged loans subindo e setores como tecnologia concentrando parcela relevante das dívidas negociadas a desconto.

No Brasil, o pano de fundo é conhecido: juros elevados, crédito mais seletivo e mercado de capitais ainda em ritmo contido

Além dos insights, essa edição traz os últimos deals.
Entre eles, os destaques vão para:

  • O Bradesco realizou uma fusão entre seus ativos de saúde: Odontoprev e Bradesco Saúde. A nova operação, batizada de Bradsaúde, nasce avaliada em BRL 37 bi e fará oferta de ações. 
  • O BTG Pactual adquiriu uma fatia do banco mexicano Banamex. O Citi (que vendeu no total uma fatia de 25% para compradores diversos) não abriu a fatia de cada um dos compradores, mas fontes a par do assunto afirmaram que o BTG pagou cerca de USD 100 mi em 1%
  • A TIM alocou cerca de BRL 950 mi para aquisição de 51% da I-Systems. A TIM já possuía 49% da empresa, que com a consolidação do controle vira sua subsidiária integral. 

Quer mais insights do M&A brasileiro? Se conecte comigo no LinkedIn e vamos conversar. 

Boa leitura.



Deals breakdown

Curadoria entre 4 de fevereiro e 3 de março.

Deals identificados: 19

DealIndustrySeller/CounterpartyBuyer/Investor
01

Appel Home adquire a Casa Argivai em pacote de BRLm 35 para ampliar portfólio e reforçar presença no varejo nacional

Consumer

Casa Argivai

Appel Home

02

Skala Cosméticos e Lola From Rio se unem sob a Bora Brasil e miram BRL 2,5 bi em vendas globais

Consumer

Skala Cosméticos e Lola From Rio

03

Petrobras adquire 42,5% do Bloco 2613 na Namíbia em parceria com a TotalEnergies e retoma aposta em novas fronteiras exploratórias

Energy

Bloco 2613 (Namíbia)

Petrobras e TotalEnergies

04

Raízen compra participação da Sumitomo e se torna única acionista da operação de biomassa

Energy

Sumitomo

Raízen

05

BTG Pactual entra no capital do Banamex em venda de USD 2,5 bi do Citigroup e reforça ofensiva no México

FIG

Banamex

BTG Pactual

06

Mapa Capital compra 53% da Plural Care e assume participação da Crescera em home care; a transação não teve valor divulgado

Healthcare/Pharma

Plural Care

Mapa Capital

07

Odontoprev e Bradesco Saúde se unem em fusão que avalia a Bradsaúde em BRL 37 bi e prepara oferta de ações

Healthcare/Pharma

Odontoprev e Bradesco Saúde

08

Lupatech vende ativos de cabos sintéticos por USDm 9,5 e sai do segmento

Industry

Lupatech

[Non Disclosed]

09

Renault fecha acordo para comprar participações da Volvo Group e da CMA CGM na Flexis e assumir controle total da joint venture elétrica

Industry

Flexis

Renault

10

TIM compra 51% da IHS na I-Systems por BRLm 950 e pavimenta futura joint venture em fibra

Infrastructure

I-Systems

TIM

11

Vale estrutura parceria no complexo de Thompson e atrai USDm 200 para ativos de níquel no Canadá

Infrastructure

Thompson

Vale

12

Ligga fecha venda para Brasil TecPar; operação combina BRLm 480 em equity e assunção de dívida

Infrastructure

Brasil TecPar

Ligga

13

FATN11 investe BRLm 45,7 na compra de lajes corporativas em quatro edifícios de São Paulo

Real Estate

Conjunto de ativos

FATN11

14

BusUp faz sua primeira aquisição, compra a espanhola IOMOB e amplia atuação além do fretamento corporativo

Services

IOMOB

BusUp

15

MCI Group compra participação na Eyxo para unir live marketing global a conteúdo e influência no Brasil

Services

Eyxo

MCI Group

16

Duo&Co compra 20% da Wave Commerce e da 6B Partners para acelerar estratégia integrada

Services

Wave Commerce e 6B Partners

Duo&Co

17

OceanPact incorpora a CBO e cria gigante nacional de serviços marítimos avaliada em BRL 4,5 bi

Services

OceanPact e CBO

18

Visma compra MaisMei e avança na consolidação para pequenos negócios; empresa catarinense é o segundo M&A da norueguesa no país

TMT

MaisMel

Vismo

19

Sophos adquire a britânica Arco Cyber para reforçar governança, gestão de riscos e validação de controles com IA e supervisão humana

TMT

Arco Cyber

Sophos


Inadimplência corporativa no Brasil: capital caro, bolsa fechada e a volta do equity

São mais de quatro anos sem estreias na bolsa brasileira e um número reduzido de follow-ons, o que ajuda a explicar a ansiedade de companhias e bancos por uma nova janela de mercado. 

Mas enquanto o mercado de capitais não se mostra uma alternativa para levantamento de fundos, a alternativa foi a dívida. Mas, aqui, parece que muitos estrategistas encontraram uma armadilha.

Esse cenário sensível de juros que estamos enfrentando, aliado a menos opções de levantar capital, são fatores que pesam para a crescente inadimplência corporativa que estamos enfrentando. Mas o problema vai além, ele é estrutural.

  • Globalmente, tecnologia e IA são vetores de muitos dos novos IPOs. Mas um número circula entre os gestores: USD 990 bi. Esse é o volume estimado de dívida que empresas do setor estão precisando enfrentar, e que está ofuscando cada vez mais IPOs em todo o mundo.

A tendência mundial se reflete no Brasil. A alavancagem cresce, mas sua redução não parece ser algo que se resolve em um ano, nem apenas com equity. Em 2021, por exemplo, o Brasil estava no auge do ciclo e os IPOs movimentam BRL 33 bi. Mesmo assim, esse valor representa apenas uma fração do ajuste necessário.

  • A frase que mais se ouve em special situations é direta: “não dá para ser mais dívida”. O estoque está alto, e o custo, proibitivo.

A retomada ensaiada começou lá fora, com estreias como PicPay e Agibank, mas ambas negociam abaixo do preço inicial. No Brasil, o movimento tem sido via follow-ons e reavaliação de cronogramas diante do fluxo estrangeiro (pontos que já renderam saldo positivo de quase BRL 31 bi até fevereiro de 2026).

O investidor local, porém, ainda não voltou. A captação líquida de BRL 75,3 bi em janeiro concentrou-se em renda fixa. Fundos de ações registraram saída de BRL 1,3 bi. O capital doméstico migrou para o CDI e não dá sinais de retorno rápido.

Enquanto isso, a deterioração aparece na ponta mais frágil: 5.680 empresas encerraram 2025 em recuperação judicial, alta de 24,3%. A recuperação deixou de ser tabu e virou ferramenta. O DIP oferece fôlego, mas exige garantias robustas.

Esse é um exemplo de como a seletividade do M&A não é única, mas compõe uma parte de uma orquestra onde estratégia ganha volume. 

O insight aqui é que, sem uma queda consistente de juros e uma onda relevante de equity, a desalavancagem tende a seguir lenta, e a estrutura de capital continuará no centro das decisões estratégicas.


O risco e oportunidade para Private Equity e M&A

Onde existem desafios, também existem oportunidades. Os dados do Serasa Experian traçam um raio-x delas:

  • O setor de Serviços lidera (55,2%) no número de inadimplentes, seguido por Comércio (32,7%) e Indústria (8,1%). 
  • As empresas inadimplentes acumulam, em média, 7 contas negativadas, com dívida média de BRL 23,8 mil
  • O Sudeste concentra 53,7% dos CNPJs negativados. 
  • Micro, pequenas e médias respondem por 8,5 milhões dos casos.

Agora, em um cenário que vai na direção de compressão de liquidez e postergação de obrigações financeiras, ainda é possível fazer estratégia. Um ator importante aqui é ele: o Private Equity.

O setor tem uma paisagem não linear à sua frente. 

  • De um lado, aumenta o risco sistêmico: geração de caixa mais volátil, maior probabilidade de defaults cruzados e diligências focadas em contingências financeiras.
  • No outro, cresce o espaço para M&A distress. Reprecificação de ativos, consolidação setorial e venda de unidades não-core entram na agenda. Fundos com caixa e capacidade operacional encontram oportunidades em carve-outs, compras pré ou pós-RJ e estruturas híbridas.

O prêmio não está no múltiplo baixo. Está na capacidade de estruturar capital, negociar com credores e executar turnaround.


Conforme inadimplência corporativa ganha espaço, também ganha o crédito estressado

Vale a pena recapitular o cenário que o crédito entra em 2026: juros elevados e deterioração da qualidade das carteiras. 

  • No Brasil, a inadimplência média do crédito bancário atingiu 4,2% em janeiro, uma máxima da série do BC desde 2011. No crédito livre, mais sensível ao ciclo, o índice chegou a 5,5%.

Parte da alta é técnica: a Resolução 4.966, de 2021, substituiu o modelo de perda incorrida pelo de perda esperada, antecipando provisões e mantendo atrasos por mais tempo nos balanços. O próprio BC estima que cerca de 70% da alta recente decorre dessa mudança. 

Ainda assim, os dados mostram uma degradação ao longo de 2025.

  • Selic em 15%, maior nível em quase duas décadas.
  • Endividamento das famílias em 49,7% da renda.
  • Comprometimento de renda em 29,2%.
  • Avanço de linhas mais arriscadas, como rotativo e cheque especial.

Para M&A e crédito privado, o impacto é direto. Temos refinaciamentos mais seletivos, spreads que tendem a abrir no secundário e trocas de dívidas caras por modalidades mais baratas.

Já temos alguns exemplos de casos em que comprar uma dívida descontada foi tão relevante quanto comprar equity. Operações pré e pós-reestruturação aumentam, com conversão de dívida em participação e injeção de capital novo.

Para os fundos, o cenário é ambíguo:

  • Private credit enfrenta aumento de non-accruals e pressão sobre NAV.
  • Portfólios com concentração em crédito livre ou consumo sofrem mais.
  • Estratégias de distressed e special situations ganham pricing power.

As projeções indicam leve melhora ao longo de 2026, com a inadimplência do crédito livre podendo recuar para algo próximo de 5,1% e 5,2%, caso a Selic inicie ciclo de queda. 

O efeito, porém, tende a ser gradual e mais perceptível apenas em 2027. Até lá, a solução ainda se concentra nas mesas de negociação.


FIG

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Tendências de Mercado

Intenções e Estratégias

Fundraising

Funds

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