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IPOs no Brasil: Ibovespa em recorde, mas sem estreias há 4 anos

Brazil 18 min read
Author
Luca Rossi

O Ibovespa voa acima de 164 mil pontos, o real se valoriza entre as principais moedas globais e a curva de juros finalmente sinaliza alívio. Na superfície, tudo indica um mercado aquecido, maduro e pronto para receber novos players. Mas tem um detalhe incômodo: a B3 completa quatro anos sem um único IPO.

Quatro anos. Nenhuma estreia. Enquanto isso, 95 empresas deixaram a Bolsa pela porta dos fundos — via OPAs de fechamento de capital. O paradoxo é gritante: recordes no índice, deserto nas estreias.

Nesta edição, navegamos por esse cenário contraditório e destrinchamos o que está travando a retomada dos IPOs no Brasil. Spoiler: não é só culpa dos juros.

Principais insights desta edição:

  • Ibovespa em alta histórica, mas com 95 empresas a menos na B3 desde 2021
  • Curva de juros precifica Selic a 12% em 2026 — mas ainda insuficiente para IPOs
  • PIB fraco (0,2% t/t no 3T25) alivia inflação, mas expõe crescimento morno
  • Fiscal no vermelho: déficit de R$ 75 bi projetado para 2025, com arrecadação abaixo do esperado
  • Custo de capital proibitivo: juro real perto de 10% torna dívida mais barata que equity
  • Expectativa para 2026? Zero. Janela pode entreabrir só em 2027 — se vier com responsabilidade fiscal real

Quer mais insights do backstage do M&A brasileiro? Se conecte comigo no LinkedIn e vamos conversar. 

Boa leitura.



Deals breakdown

Curadoria entre 24 de novembro e 11 de dezembro.

Deals identificados: 32

DealIndustrySeller/CounterpartyBuyer/Investor
01

Wallerius Seguros adquire 100% da Ativa Agro e reforça presença no setor de irrigação. a transação não teve o valor divulgado

Agribusiness

Wallerius Seguros

Ativa Agro

02

JBS e Grupo VIVA se unem para criar líder global no segmento de couro

Agribusiness

JBS e Grupo VIVA

N/A

03

Be8 investe BRLm 70 na aquisição de usina de biodiesel em MT

Agribusiness

Be8

N/A

04

Raça Agro adquire a Agroline por BRLm 80 e amplia presença no mercado de insumos pecuários

Agribusiness

Raça Agro

Agroline

05

Multi conclui venda de unidade de tapetes higiênicos para pets por BRLm 15 para Grupo Bun

Consumer

Multi

Grupo Bun

06

Após Semenzato, Carlos Wizard entra no setor ótico e se torna sócio da Óticas Duty, que planeja saltar de 5 para 1.000 lojas

Consumer

Carlos Wizard

Óticas Duty

07

Fundos do Grupo Muffato compram BRLm 63,65 de ações do Assaí e alcançam participação de ~10% na atacadista

Consumer

Grupo Muffato

Assaí

08

Grupo Impettus compra Sirène por BRLm 14 e incorpora rede de fish & chips ao portfólio

Consumer

Grupo Impettus

Sirène

09

Águila Energia amplia portfólio e adquire quatro campos de petróleo terrestres na Bahia; em transação sem valor divulgado

Energy

Águila Energia

N/A

10

State Grid fecha acordo para aquisição da Linha Mantiqueira e avança em expansão no Brasil; o negócio é estimado em BRL 7 bi

Energy

State Grid

Linha Mantiqueira

11

Patria entra com força em FIDCs ao adquirir 51% da Solis e garantir opção pelos 49% restantes; a transação não teve valor divulgado

FIG

Patria

Solis

12

SRM conclui compra da Empírica, em operação que marca desinvestimento da Arandu (ex-Reag)

FIG

SRM

Empírica

13

Nubank faz acquihire e absorve time da DEX Labs em movimento para reforçar IA

FIG

Nubank

DEX Labs

14

Arandu, antiga Reag Investimentos, vende gestora de fortunas para CVPar

FIG

Arandu

CVPar

15

Smart Fit compra controle da rede Evolve e reforça domínio no mercado fitness; valor da transação não foi divulgado

Healthcare/Pharma

Smart Fit

Evolve

16

Armac compra a Brasilift e amplia portfólio com locação de empilhadeiras em transação sem valor divulgado

Industry

Armac

Brasilift

17

Aura Minerals adquire integralmente a Goiana Mineração Serra Grande em operação de USDm 32

Industry

Aura Minerals

Goiana Mineração Serra Grande

18

A Zaaz anunciou a aquisição da operadora regional Proxxima, com atuação concentrada em Pernambuco, Paraíba, Bahia, Rio Grande do Norte e Ceará em transação sem valor divulgado

Infrastructure

Zaaz

Proxxima

19

Engemon dá salto internacional: compra construtora no Paraguai e inaugura a Engemon Internacional; a transação não teve valor divulgado

Infrastructure

Engemon

N/A

20

TIM aprova compra da V8.Tech por BRLm 140 e reforça aposta no B2B

Infrastructure

TIM

V8.Tech

21

Gafisa avança em desalavancagem e aprova venda de participação na SPE para a Soter; a transação não teve valor divulgado

Real Estate

Gafisa

Soter

22

TRXF11 compra agências da Caixa e do Santander por BRLm 140

Real Estate

TRXF11

Caixa e Santander

23

TRXF11 entra em shoppings e compra 100% do ViaBrasil Pampulha e 50% do Paragem por BRLm 257,7 — pagamento integral em cotas

Real Estate

TRXF11

ViaBrasil Pampulha e Paragem

24

FII RZAT11 vende ativos por BRLm 14 e avança em estratégia de reciclagem de portfólio

Real Estate

RZAT11

N/A

25

DOT Digital Group anuncia aquisição da Edusense, em transação sem valor divulgado, e avança na estratégia de educação corporativa digital

Services

DOT Digital Group

Edusense

26

Navemazônia assume WPL e cria novo gigante de transporte fluvial de combustíveis na Amazônia com aval do Cade

Services

Navemazônia

WPL

27

Colégios Albert Sabin e Vital Brazil são vendidos ao fundo britânico Stirling Square por cerca de BRLm 500

Services

Colégios Albert Sabin e Vital Brazil

Stirling Square

28

Eletromidia assina acordo para comprar 100% da Context

Services

Eletromidia

Context

29

Fundo de Lemann vende Edify para Arco Educação em transação sem valor divulgado

Services

Edify

Arco Educação

30

Subsidiária da Totvs fecha compra da Suri e fortalece portfólio estratégico por BRLm 28

TMT

TOTVS

Suri

31

TecnoSpeed anuncia aquisição da AssinaDoc e reforça portfólio de soluções para notas fiscais e assinatura digital

TMT

TecnoSpeed

AssinaDoc

32

Em deal de BRLm 162,5, Senior incorpora a Cigam e acelera estratégia de consolidação

TMT

Senior

Cigam


IPOs no Brasil: recordes na bolsa, mas sem novas estreias

O Ibovespa bateu recordes históricos na última semana, fechando acima dos 164 mil pontos com alta generalizada em quase todas as 82 ações da carteira. O otimismo veio embalado por um PIB do terceiro trimestre abaixo do esperado — o que, paradoxalmente, animou o mercado ao reforçar apostas de corte na Selic — e pela expectativa de afrouxamento monetário tanto aqui quanto nos Estados Unidos. “Há um apetite por risco renovado”, resumiu uma analista. A euforia é tanta que há quem aposte em Ibovespa a 171 mil pontos até o fim do ano.

Mas tem um detalhe: enquanto o índice voa, a B3 completa quatro anos sem um único IPO.

Quatro anos. Para quem viveu o êxtase de 2020 e 2021, quando empresas abriam capital como quem inaugura padaria de bairro, o contraste é brutal. Naquela época, havia 463 empresas listadas. Hoje? 368. A diferença não evaporou: saiu pela porta dos fundos, via OPAs de fechamento de capital — a Neoenergia é só o exemplo mais recente.

O diagnóstico é claro, mas incômodo: aquele boom foi artificial. Com a Selic a 2%, o mercado se embriagou de liquidez e levou à Bolsa empresas que, convenhamos, não tinham lá muito preparo para o protagonismo. Quando a taxa básica voltou para a realidade — beirando dois dígitos — o custo médio ponderado de capital disparou. Emitir dívida privada virou mais barato que emitir ações. E se o investidor local migrou para a renda fixa e o gringo prefere commodities e bancos tradicionais, quem sobra para comprar papel de estreante? Ninguém.

A regulação não é vilã — o mercado brasileiro é maduro nisso. Mas os custos de ser companhia aberta pesam quando a Bolsa não remunera de verdade. E os controladores sabem fazer contas: se minha empresa está subavaliada, por que não comprar de volta?

Para 2026? Expectativa zero. A janela pode entreabrir em 2027, mas só se vier acompanhada de responsabilidade fiscal, queda estrutural dos juros e reconstrução de credibilidade. Até lá, seguimos nesse paradoxo: recordes no índice, deserto nas estreias.


Juros em Queda, real forte, IPOs no Brasil em Espera: o paradoxo do otimismo incompleto

O mercado brasileiro vive um momento curioso: otimismo na superfície, cautela nas entrelinhas. O Ibovespa bate recordes, o real se valoriza e a curva de juros futuros indica alívio à frente — mas a fila de IPOs segue vazia há quatro anos.

Os sinais macro recentes animam. O IPCA-15 de novembro veio com alta de 0,20% m/m, acima do consenso, mas com surpresas concentradas em itens voláteis. A média dos núcleos recuou para o menor nível desde meados de 2024, evidenciando uma dinâmica benigna da inflação. O mercado de trabalho de outubro trouxe resultados mistos: o CAGED gerou 85 mil empregos formais, abaixo do esperado, enquanto a taxa de desemprego caiu para 5,4%. É um mercado ainda apertado, mas sem sinais de superaquecimento.

A curva de juros captou o recado. Os futuros de DI tiveram deslocamento para baixo ao longo de toda a estrutura, com a precificação indicando Selic ao redor de 12% no final de 2026 — ante 12,25% na semana anterior. A probabilidade de corte já em janeiro? 64%, segundo as últimas leituras. O mercado projeta início do ciclo de afrouxamento em breve, com Selic terminal de 2026 em 12,50%.

Então por que as empresas não voltam à Bolsa?

Porque o alívio na curva de juros não é suficiente — ainda. Com juro real próximo de 10%, o custo médio ponderado de capital segue proibitivo para IPOs. E há o lado fiscal: a revisão bimestral do Orçamento de 2025 veio levemente mais desfavorável, com o aperto líquido reduzido em menos de BRL 1 bi. A sanção da lei que amplia a faixa de isenção do IR até BRLk 5 e a aprovação da aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde (impacto estimado em BRL 5-6 bi por ano, segundo estudo do Santander) mantêm o radar fiscal piscando em amarelo.

A conta é simples: sem âncora fiscal, a política monetária trabalha em dobro. E sem credibilidade estrutural, mesmo com cortes de juros à vista, o apetite por IPOs segue congelado. Para 2026, expectativa zero. A janela pode entreabrir em 2027 — mas só se vier acompanhada de responsabilidade fiscal real, não apenas de sinalizações pontuais.


PIB fraco, contas públicas no vermelho: a receita perfeita para adiar IPOs no Brasil

A prévia do PIB trouxe um dado que o mercado adorou — mas pelo motivo errado. Após desacelerar no 2T25, a projeção para o 3T25 é de alta marginal de apenas 0,2% t/t, reforçando um cenário de pouco suave para a economia no segundo semestre. A produção agrícola deve seguir como fator negativo, enquanto serviços e indústria devem manter contribuição positiva, apesar da fraqueza nos segmentos mais sensíveis ao ciclo. Para 2025, projeta-se crescimento de 2% — longe de robusto.

O mercado comemorou porque crescimento fraco significa menos pressão inflacionária e, teoricamente, espaço para corte de juros. Mas tem um problema: essa lógica só funciona se o lado fiscal estiver arrumado. E não está.

A arrecadação federal até outubro totalizou BRL 261,9 bi, alta real de 0,9% a/a, abaixo das expectativas, refletindo a desaceleração dos componentes cíclicos diante de menor atividade e inflação mais baixa. O IOF e o mercado de trabalho seguem sustentando parte da receita, mas o governo central registrou superávit de BRL 36,5 bi em outubro, impulsionado por BRL 2,8 bi em dividendos de estatais — um alívio pontual, não estrutural. A receita líquida avançou 4,5% a/a, mas as despesas subiram 9,2%, puxadas por benefícios sociais e maior execução orçamentária.

Em 12 meses, o déficit do governo central permanece em BRL 41,9 bi (0,35% do PIB). A projeção para 2025 é de déficit de BRL 75 bi (0,6% do PIB), com cumprimento da meta dependente de receitas extraordinárias e de riscos crescentes de menor arrecadação em 2025.

Traduzindo: o fiscal está apertado, o crescimento está morno e a política monetária vai precisar segurar a onda sozinha. Nesse contexto, mesmo com Selic caindo, o custo de capital segue alto e a percepção de risco segue elevada. Para empresas que pensam em IPO, a conta não fecha. Crescimento fraco significa múltiplos comprimidos. Fiscal frágil significa prêmio de risco alto. Juros em queda, mas ainda em dois dígitos, significam que emitir dívida segue mais barato que emitir ações.

Resultado? A fila de IPOs segue vazia. E deve seguir assim até que o Brasil entregue não apenas sinalizações, mas resultados fiscais críveis e crescimento sustentável. Enquanto isso, a B3 continuará batendo recordes — com cada vez menos empresas no índice.


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