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M&A no Brasil: maturidade, capital estrangeiro e o próximo ciclo

Brazil 12 min read
Author
Luca Rossi

Nessa quinzena, o capital estrangeiro “ganhou as ruas” do M&A brasileiro. Entre compras e desinvestimentos, foram as multinacionais que tiraram do bolso os destaques desta semana. Entre eles, estão:

  • A General Mills encerrou um processo competitivo iniciado no ano passado com a contratação do Goldman Sachs: Yoki e Kitano foram para a 3Corações por BRL 800 milhões. Fundos de PE, gestoras de reestruturação e players como M Dias Branco e Camil avaliaram o ativo, mas a 3Corações já era a favorita. 
  • A Ferrero chegou no mercado brasileiro de alimentos saudáveis. A aquisição da Bold Snacks marca a estreia da gigante italiana na categoria “better for you” por aqui, replicando o playbook já executado nos EUA e na Europa..
  • A Claro confirmou a compra do controle da Desktop por BRL 4 bilhões. A operação expande a base da telecom mexicana no interior e litoral paulista e abre apetite para mais M&As no segmento. A disputa pelo usuário fora das capitais entrou em uma nova fase.

Três movimentos, três lógicas distintas. O que une: dinheiro de fora definindo o próximo capítulo de setores muito brasileiros.

Quer mais insights do backstage do M&A brasileiro? Se conecte comigo no LinkedIn e vamos conversar. 

Boa leitura.



Deals breakdown

Curadoria entre 17 de março e 31 de março.

Deals identificados: 10

DealIndustrySeller/CounterpartyBuyer/Investor
01

3Corações leva Yoki e Kitano da General Mills por BRLm 800 e aposta em turnaround no Brasil

Consumo

Yoki

3Corações

02

Capitânia Investimentos compra 50% de CD em Rio Claro por BRLm 135 e se associa ao Grupo MNGT

Real Estate

CD em Rio Claro

Capitânia Investimentos

03

Ferrero entra no “better for you” e compra Bold Snacks para avançar em proteínas e snacks saudáveis

Consumo

Bold Snacks

Ferrero

04

Maringá Ferro-Liga investe BRLm 100 e assume 2 usinas (31,2 MW) da Statkraft para garantir autossuficiência energética

Energia

Statkraft

Maringá Ferro-Liga

05

Wizard une operações com Empoderamento Adolescente e cria rede socioemocional com BRLm 10 de receita e meta de BRLm 50 até 2030

Serviços

Empoderamento Adolescente

Wizard

06

Axia Energia descruza participações com ISA Energia, sai do Madeira, assume Garanhuns e recebe BRL 1,17 bi

Energia

Garanhuns

Axia Energia

07

Claro compra 73% da Desktop por BRL 2,41 bi, avalia empresa em BRL 4 bi e paga prêmio de 45%

Infraestrutura

Desktop

Claro

08

Madrona Advogados incorpora Coelho & Dalle após 1 ano de negociação e adiciona 4 sócios para avançar no Nordeste

FIG

Coelho & Dalle

Madrona Advogados

09

Buser compra Expresso JK e Santa Maria e entra no transporte rodoviário regular após entraves regulatórios

Serviços

Expresso JK e Santa Maria

Buser

10

Azevedo & Travassos Energia fecha acordo para comprar ativos da Petro-Victory Energy em operação de BRLm 28,2

Infraestrutura

Petro-Victory Energy

Azevedo & Travassos Energia


M&A de tecnologia no Brasil: maturidade, macro e o próximo ciclo

Antes de qualquer coisa, vale recapitular a história que você já conhece. O ano de 2021 começou com euforia, 2022 e 2023 foram marcados por reprecificação e 2024 estabeleceu nosso “novo normal”: valuations realistas, governança e performance com peso redobrado e rigor na hora de definir o poder de tecnologias. O M&A parou de ser atalho e voltou a ser decisão estratégica. 

Agora, dados recentes mostram que, em 2025, o M&A em Tech mantém o momentum, apesar das adversidades do mercado brasileiro. 

  • Um exemplo? A Outlier Partners acaba de entrar no jogo focada exclusivamente no sell-side de startups com receita entre BRL 600k e BRLm 1,2, mirando deals de até BRLm 100. O middle market de tech ganha uma assessoria especializada, em um sinal claro de que o segmento amadureceu o suficiente para ter seus próprios players dedicados.

O que os dados de 2025 revelam

Na distribuição setorial sell-side, Mercado Financeiro, ERP/TI e Marketing e Vendas lideram as transações. Esses são setores onde a digitalização de processos tradicionais ainda tem espaço para correr e onde compradores encontram receita recorrente e modelos SaaS B2B com alto grau de previsibilidade financeira. 

O dado que merece atenção é a ascensão de Análise de Dados como o quinto setor mais ativo: a IA deixou de ser narrativa e virou linha no pipeline. Compradores não querem mais só crescimento de base, mas buscam também capacidade analítica, automação embarcada e diferenciação competitiva real.

No buy-side, a dispersão cresceu. O índice de compra se aproxima da paridade entre compradores e vendedores: mercado menos concentrado, mais democrático e mais técnico. Empresas médias, com teses bem definidas, substituíram os compradores seriais do ciclo anterior. 

Em 2025, o aumento de transações cross-border reforça esse amadurecimento: consolidadores externos passaram a enxergar ativos brasileiros com crescimento e diferenciação real como oportunidades concretas.

Mas o mercado também revela suas tensões. 

  • A Raízen propõe converter até 45% de seus BRL 65 bilhões em dívida em ações (diluindo Cosan e Shell) e enfrenta resistência dos bancos. 
  • A Aegea sonda uma rodada pré-IPO para ganhar tempo com a janela da B3 fechada. 
  • O Wellhub adia sua oferta nos EUA e condiciona o IPO à expansão global. 

Três empresas, três estratégias diferentes para o mesmo problema: como crescer quando o mercado público não está disponível e o crédito custa caro. A resposta, em todos os casos, passa pelo M&A ou pela reestruturação de capital, e isso diz muito sobre o momento.

Há, porém, um gargalo estrutural que persiste: falta de ativos preparados. Governança fraca e escalabilidade questionável continuam tirando empresas brasileiras do radar dos consolidadores estratégicos. Esse problema não se resolve com liquidez, mas com tempo e disciplina operacional.


O capital estrangeiro que condiciona o próximo ciclo

Os números contam uma história de reversão expressiva. Os investimentos estrangeiros no Brasil fecharam 2025 em USD 77 bi, crescimento de 3,5% em relação a 2024. Na bolsa, o movimento foi ainda mais abrupto: estrangeiros aplicaram mais de BRL 26 bi em 2025 — e em janeiro de 2026 sozinho já superaram esse volume total. Até 27 de fevereiro, o acumulado chegou a BRL 41,8 bi, com o Ibovespa valorizando 17,17% no ano.

Para o M&A, esse fluxo importa, mas com a leitura certa. A participação de investidores estrangeiros nas operações de fusões e aquisições no Brasil atingiu 41%, indicando retomada relevante do interesse internacional. O IED em novos projetos produtivos no país cresceu 67% de 2022 a maio de 2025, ante média global de 24%, mesmo em meio à fragmentação política e aumento de barreiras tarifárias.

O perfil desse capital mudou. Meganegócios com valores superiores a USD 1 bi representam apenas 1% dos negócios cross-border, mas somam metade do valor total (ante ⅓ há cinco anos). Quem entra no Brasil hoje não está farejando oportunidade, está comprando posição estratégica.

Mas o apetite externo não resolve o gargalo interno. Capital estrangeiro continua vendo o Brasil como mercado estratégico, mas com padrões globais de exigência: governança, ESG, compliance e clareza societária deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos. Na prática, o filtro do comprador estrangeiro é ainda mais duro que o do nacional, e o mercado brasileiro de tecnologia ainda tem empresas que não passam nesse crivo.

O fluxo está voltando. A questão é quantos ativos estão prontos para recebê-lo.


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