Nessa quinzena, o capital estrangeiro “ganhou as ruas” do M&A brasileiro. Entre compras e desinvestimentos, foram as multinacionais que tiraram do bolso os destaques desta semana. Entre eles, estão:
- A General Mills encerrou um processo competitivo iniciado no ano passado com a contratação do Goldman Sachs: Yoki e Kitano foram para a 3Corações por BRL 800 milhões. Fundos de PE, gestoras de reestruturação e players como M Dias Branco e Camil avaliaram o ativo, mas a 3Corações já era a favorita.
- A Ferrero chegou no mercado brasileiro de alimentos saudáveis. A aquisição da Bold Snacks marca a estreia da gigante italiana na categoria “better for you” por aqui, replicando o playbook já executado nos EUA e na Europa..
- A Claro confirmou a compra do controle da Desktop por BRL 4 bilhões. A operação expande a base da telecom mexicana no interior e litoral paulista e abre apetite para mais M&As no segmento. A disputa pelo usuário fora das capitais entrou em uma nova fase.
Três movimentos, três lógicas distintas. O que une: dinheiro de fora definindo o próximo capítulo de setores muito brasileiros.
Quer mais insights do backstage do M&A brasileiro? Se conecte comigo no LinkedIn e vamos conversar.
Boa leitura.

Deals breakdown
Curadoria entre 17 de março e 31 de março.
Deals identificados: 10
M&A de tecnologia no Brasil: maturidade, macro e o próximo ciclo
Antes de qualquer coisa, vale recapitular a história que você já conhece. O ano de 2021 começou com euforia, 2022 e 2023 foram marcados por reprecificação e 2024 estabeleceu nosso “novo normal”: valuations realistas, governança e performance com peso redobrado e rigor na hora de definir o poder de tecnologias. O M&A parou de ser atalho e voltou a ser decisão estratégica.
Agora, dados recentes mostram que, em 2025, o M&A em Tech mantém o momentum, apesar das adversidades do mercado brasileiro.
- Um exemplo? A Outlier Partners acaba de entrar no jogo focada exclusivamente no sell-side de startups com receita entre BRL 600k e BRLm 1,2, mirando deals de até BRLm 100. O middle market de tech ganha uma assessoria especializada, em um sinal claro de que o segmento amadureceu o suficiente para ter seus próprios players dedicados.
O que os dados de 2025 revelam
Na distribuição setorial sell-side, Mercado Financeiro, ERP/TI e Marketing e Vendas lideram as transações. Esses são setores onde a digitalização de processos tradicionais ainda tem espaço para correr e onde compradores encontram receita recorrente e modelos SaaS B2B com alto grau de previsibilidade financeira.
O dado que merece atenção é a ascensão de Análise de Dados como o quinto setor mais ativo: a IA deixou de ser narrativa e virou linha no pipeline. Compradores não querem mais só crescimento de base, mas buscam também capacidade analítica, automação embarcada e diferenciação competitiva real.
No buy-side, a dispersão cresceu. O índice de compra se aproxima da paridade entre compradores e vendedores: mercado menos concentrado, mais democrático e mais técnico. Empresas médias, com teses bem definidas, substituíram os compradores seriais do ciclo anterior.
Em 2025, o aumento de transações cross-border reforça esse amadurecimento: consolidadores externos passaram a enxergar ativos brasileiros com crescimento e diferenciação real como oportunidades concretas.
Mas o mercado também revela suas tensões.
- A Raízen propõe converter até 45% de seus BRL 65 bilhões em dívida em ações (diluindo Cosan e Shell) e enfrenta resistência dos bancos.
- A Aegea sonda uma rodada pré-IPO para ganhar tempo com a janela da B3 fechada.
- O Wellhub adia sua oferta nos EUA e condiciona o IPO à expansão global.
Três empresas, três estratégias diferentes para o mesmo problema: como crescer quando o mercado público não está disponível e o crédito custa caro. A resposta, em todos os casos, passa pelo M&A ou pela reestruturação de capital, e isso diz muito sobre o momento.
Há, porém, um gargalo estrutural que persiste: falta de ativos preparados. Governança fraca e escalabilidade questionável continuam tirando empresas brasileiras do radar dos consolidadores estratégicos. Esse problema não se resolve com liquidez, mas com tempo e disciplina operacional.
O capital estrangeiro que condiciona o próximo ciclo
Os números contam uma história de reversão expressiva. Os investimentos estrangeiros no Brasil fecharam 2025 em USD 77 bi, crescimento de 3,5% em relação a 2024. Na bolsa, o movimento foi ainda mais abrupto: estrangeiros aplicaram mais de BRL 26 bi em 2025 — e em janeiro de 2026 sozinho já superaram esse volume total. Até 27 de fevereiro, o acumulado chegou a BRL 41,8 bi, com o Ibovespa valorizando 17,17% no ano.
Para o M&A, esse fluxo importa, mas com a leitura certa. A participação de investidores estrangeiros nas operações de fusões e aquisições no Brasil atingiu 41%, indicando retomada relevante do interesse internacional. O IED em novos projetos produtivos no país cresceu 67% de 2022 a maio de 2025, ante média global de 24%, mesmo em meio à fragmentação política e aumento de barreiras tarifárias.
O perfil desse capital mudou. Meganegócios com valores superiores a USD 1 bi representam apenas 1% dos negócios cross-border, mas somam metade do valor total (ante ⅓ há cinco anos). Quem entra no Brasil hoje não está farejando oportunidade, está comprando posição estratégica.
Mas o apetite externo não resolve o gargalo interno. Capital estrangeiro continua vendo o Brasil como mercado estratégico, mas com padrões globais de exigência: governança, ESG, compliance e clareza societária deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos. Na prática, o filtro do comprador estrangeiro é ainda mais duro que o do nacional, e o mercado brasileiro de tecnologia ainda tem empresas que não passam nesse crivo.
O fluxo está voltando. A questão é quantos ativos estão prontos para recebê-lo.
Agronegócio
Consumo
Intenções e Estratégias
- Petcamp mira ativos de Petz e Cobasi para entrar na capital paulista via M&A
- Americanas propõe incorporar Ame Digital e subsidiárias para simplificar estrutura após saída da recuperação judicial
- Advent International mira até 10% da Natura (BRL 1,3 bi) enquanto fundadores deixam conselho após lucro de BRLm 486 e queda da alavancagem
M&A
Energia
Intenções e Estratégias
- Raízen propõe converter até 45% da dívida (BRL 65 bi) em ações, dilui controle de Cosan e Shell e enfrenta resistência de bancos
- Grupo Energía Bogotá negocia fusão com Verene, controlada pelo CDPQ, para crescer em transmissão no Brasil
- Carrefour Brasil fecha acordo de BRL 1 bi com Casa dos Ventos por 10 anos para suprir 25% do consumo com energia solar
Controvérsias
- Risco no MCP sem garantias: quando prejuízo vira crime no mercado livre de energia
- Leilão de BRL 64 bi tem deságio de 5,2%, mudanças de regra e contestação da Âmbar Energia e deve parar na Justiça
M&A
FIG
Tendências de Mercado
- Daniel Goldberg alerta: passivos fora do balanço distorcem risco e dificultam precificação no crédito privado
- Crédito corporativo migra de beta para alfa após emissões saltarem de BRL 2,6 tri (2020) para BRL 4 tri (2025) e desacelerarem para BRL 1,2 tri anualizado
- Oferta de carteiras pode crescer 73% em 2026, mas 51% das vendas travam por preço em mercado de BRL 7 tri
- Novo Regime Fácil: como regras simplificadas prometem abrir o mercado de capitais para pequenas companhias
- Excesso de investimentos na pandemia ainda pesa sobre private equity, diz Warburg Pincus
Intenções e Estratégias
- BRB adia assembleia e negocia com BC novo prazo para solução de capitalização
- Qual a fatia que o Nubank pode abocanhar nos EUA
- Josef Rubin e Hendel Favarin lançam VC após venda de BRLm 400 e miram 10 aportes em empresas com receita de BRLm 5 a BRLm 50
- Meutudo acelera consignado com BTG Pactual e mira carteira de BRL 35 bi após compra por BRLm 34
M&A
Healthcare/Pharma
Intenções e Estratégias
- SulAmérica recalibra portfólio com compressão de spreads e reforça aposta em renda fixa com Selic a 13%
- Alliança Saúde busca proteção contra credores com dívida de BRL 1,3 bi após pressão de fornecedores
- Fleury entra em negociação com Porto e Oncoclínicas em estrutura com aporte de BRLm 500 mi e até BRL 2,5 bi em passivos
- Oncoclínicas diz que “Master é página virada” e avança em negociação com Porto e Fleury em estrutura que concentra dívida e prevê até BRLm 300 de reforço
- União Química avalia M&As nos EUA e mantém radar no Oriente Médio enquanto busca sócio para expansão global
- Latache quer manter Oncoclínicas listada e pressiona Centaurus por OPA após disputa por participação de 18%
Controvérsias
Fundraising
Industria
Intenções e Estratégias
- CSN sonda gestoras de crédito para empréstimo-ponte enquanto acelera desalavancagem
- CSN busca até USD 1,4 bi e promete vender CSN Cimentos e fatia de infraestrutura “rápido”, mas mercado duvida de Benjamin Steinbruch
- Biomm propõe migração ao Nível 2 da B3 após crise do Banco Master e reestruturação acionária
Controvérsias
Infraestrutura
Intenções e Estratégias
- Sabesp e Equatorial Energia avaliam coinvestimento para disputar controle da Copasa
- Aegea Saneamento sonda rodada pré-IPO para ganhar tempo em meio à volatilidade e janela fechada na B3
- Aena paga BRL 2,8 bi pelo Galeão (ágio de 210%) e assume liderança no Brasil com 18 aeroportos após disputa com Zurich Airport Group
M&A
Real Estate
Serviços
Intenções e Estratégias
- Outlier Partners traz Anderson Diehl e mira sell-side de startups com receita de BRLk 600 a BRLm 1,2 e deals de até BRLm 100
- JSL propõe cisão de BRLm 29,9 e incorporação da Fazenda São Lucas Logística para reduzir custos operacionais
- Wellhub adia IPO nos EUA e condiciona oferta à expansão global, com foco em superar Brasil no mercado americano
Fundraising
- Bliss capta USDm 11 com Kfund e Bradesco após breakeven e promete cortar emissão de seguros de 7 dias para 3 minutos
- Hero Seguros capta BRLm 35 com Headline XP e Actyus para expandir seguro viagem na América Latina após atingir 15% de market share
Luca Rossi