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M&A no Brasil 2026: consolidação, inbound e reforma tributária

Brazil 9 min read
Author
Joseph Kalim

Duas forças movem esta edição. A consolidação virou o motor do M&A brasileiro: menos negócios e maiores, com o comprador cada vez mais estrangeiro e o câmbio abrindo a porta. No doméstico, a disputa é por plataforma e escala, de wealth a defesa, e não mais por receita marginal.

A segunda força é fiscal. A reforma tributária entrou no valuation e começou a reprecificar ativos: a due diligence virou prospectiva, o risco fiscal virou prognóstico e a própria incerteza vira catalisador da consolidação, de telecom aos serviços.

Na quinzena, os dois movimentos andaram lado a lado, do inbound em infraestrutura e seguros à corrida por custódia no wealth.

Os highlights desta edição são:

  • Aena assume o Galeão até 2039, inbound direto em infraestrutura regulada de longo prazo, com lance de BRL 2,9 bi e 20% do faturamento repassado à União, consolidando a espanhola como maior operadora aeroportuária do país.
  • Liberty Mutual leva a Austral, retomada do capital americano ao Brasil via um dos cinco maiores players de seguro garantia, mirando riscos de infraestrutura e energia.
  • SVN compra a Expertise e chega a BRL 37 bi sob custódia, a consolidação doméstica em destaque, no mesmo compasso do Grupo Primo, que levou a Oikos e alcançou BRL 34 bi: no wealth, a régua virou AuC.

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Boa leitura.



Resumo da Quinzena | 6 de outubro até 19 de outubro, 2026

O enredo da edição passada se mantém: menos negócios, maiores e com o comprador cada vez mais de fora. Mas a quinzena trouxe um segundo eixo, a consolidação doméstica fatiando nichos, de wealth a defesa.

No wealth, a régua é AuC. A SVN levou a Expertise, somou BRLm 900 e chegou a BRL 37 bi sob custódia; o Grupo Primo comprou a Oikos e alcançou BRL 34 bi; e o Itaú abocanhou 35% da Prisma para entrar em alternativos. É plataforma e escala, não receita marginal.

Announced dealsAnnounced deals (EN)IndustryBuyer/InvestorSeller/Counterparty
01

M. Dias Branco compra 80% da fabricante de pães congelados Grespan, que faturou R$ 138,7 milhões em 2025

M. Dias Branco acquires 80% of the frozen bread manufacturer Grespan, which had revenues of R$ 138.7 million in 2025.

Consumer (Food & Beverage)

M. Dias Branco

Grespan

02

Globe Investimentos, dos irmãos Batista, conclui aquisição da fabricante de aeronaves Avibras

Globe Investimentos, owned by the Batista brothers, completes the acquisition of aircraft manufacturer Avibras.

Industrials (Aerospace & Defence)

Globe Investimentos

Avibras

03

Itaú compra participação de 35% na Prisma para ampliar atuação em investimentos alternativos

Itaú acquires a 35% stake in Prisma to expand its operations in alternative investments.

Financial Services (Asset Management)

Itaú

Prisma

04

Liberty Mutual vai comprar a seguradora brasileira Austral

Liberty Mutual will buy the Brazilian insurance company Austral.

Financial Services (Insurance)

Liberty Mutual

Austral

05

Archimed firma parceria com a Genetica Bioscience, especialista brasileira em tratamento biológico de efluentes

Archimed establishes partnership with Genetica Bioscience, a Brazilian specialist in biological wastewater treatment.

Healthcare (Environmental Services)

Archimed

Genetica Bioscience

06

Pátria investe cerca de R$ 100 milhões em projeto de cultivo de avocado e restauração ambiental

Pátria invests approximately R$ 100 million in avocado cultivation and environmental restoration project.

Agriculture & Food (Agribusiness)

Pátria Investimentos

Projeto de cultivo de avocado e restauração ambiental (contraparte não informada)

07

Vela LatAm compra 100% da desenvolvedora argentina de software Axoft, dona do Tango

Vela LatAm acquires 100% of the Argentinian software developer Axoft, owner of Tango.

Technology (Software)

Vela LatAm

Axoft

08

Ticketmaster compra Bilheteria Digital em transação de R$ 150 milhões

Ticketmaster acquires Bilheteria Digital in a transaction worth R$ 150 million.

Consumer (Entertainment & Ticketing)

Ticketmaster

Bilheteria Digital

09

FII Riza Terrax vende fazenda por até R$ 230 milhões e estima impacto positivo de R$ 5,78 por cota

Brazilian real estate investment fund Riza Terrax sells farm for up to R$ 230 million and estimates a positive impact of R$ 5.78 per share.

Real Estate (Agricultural Property)

Comprador não divulgado

FII Riza Terrax

10

Kadri Group compra participação de 30% na brasileira General Water

Kadri Group acquires a 30% stake in Brazilian company General Water.

Infrastructure (Water & Wastewater)

Kadri Group

General Water

11

Embraer compra participação de 51% na Novavayu Aerospace, subsidiária da Mahindra

Embraer acquires a 51% stake in Novavayu Aerospace, a subsidiary of Mahindra.

Industrials (Aerospace & Defence)

Embraer

Novavayu Aerospace (subsidiária da Mahindra)

12

Fundos da BRL Trust vendem participação de 12,5% e deixam a base acionária da Allied

BRL Trust funds sell 12.5% stake and exit Allied's shareholder base.

Consumer (Consumer Electronics Retail)

Comprador não divulgado

Fundos da BRL Trust

13

Vela LatAm compra 100% da Axoft Argentina, desenvolvedora do software de gestão Tango

Vela LatAm acquires 100% of Axoft Argentina, developer of the Tango management software.

Technology (Software)

Vela LatAm

Axoft Argentina

14

Leilão do pré-sal arrecada ofertas vencedoras por 7 dos 13 blocos ofertados

Pre-salt auction attracts winning bids for 7 of the 13 blocks offered.

Energy (Oil & Gas)

Consórcios/empresas vencedoras (não especificados na manchete)

Governo brasileiro / blocos do pré-sal ofertados

15

Aena assume operação do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro até 2039

Aena will operate Rio de Janeiro International Airport until 2039.

Infrastructure (Airport Concession)

Aena

Concessão do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro; poder concedente não especificado na manchete

16

HBR lança oferta para comprar ações da Helbor a R$ 2,52 por ação

HBR launches offer to buy Helbor shares at R$ 2.52 per share.

Real Estate (Residential Property)

HBR Realty

Acionistas da Helbor

17

SVN compra a assessoria de investimentos Expertise, adiciona R$ 900 milhões sob custódia e alcança R$ 37 bilhões

SVN acquires investment advisory firm Expertise, adding R$900 million in assets under management and reaching R$37 billion.

Financial Services (Wealth Management)

SVN

Expertise

18

Grupo Primo compra a Oikos e chega a R$ 34 bilhões sob custódia

Grupo Primo acquires Oikos, bringing assets under custody to R$ 34 billion.

Financial Services (Wealth Management)

Grupo Primo

Oikos

No inbound, o câmbio seguiu abrindo a porta. A Liberty Mutual recomprou presença ao levar a Austral, de olho em seguro garantia; o fundo francês Archimed firmou parceria com a Genetica Bioscience, em tratamento de efluentes; a Aena assumiu o Aeroporto do Rio até 2039; o Kadri Group ficou com 30% da General Water; e a Ticketmaster comprou a Bilheteria Digital por BRLm 150.

Na economia real, a tese dos átomos continua. O leilão do pré-sal arrematou sete dos treze blocos, a defesa esquentou com os irmãos Batista concluindo a Avibras e a Embraer levando 51% da Novavayu, da Mahindra, e o Pátria pôs cerca de BRLm 100 em avocado e restauração. Menos deals, mais plataforma: quem consolida dita o preço.


A reforma tributária reprecifica o Brasil, ativo por ativo

A reforma tributária costuma ser lida por três eixos: arrecadação, competitividade e simplificação. Mas há um quarto efeito, mais silencioso, que já mexe no M&A: a reprecificação de ativos. Valuation é, no fundo, uma projeção de geração de caixa futura, e quanto maior a previsibilidade de receita, custo e carga, mais precisa a conta. CBS, IBS e o IVA dual alteram exatamente esse grau de previsibilidade. O mercado já enxerga a tendência, mas ainda não mede a magnitude.

A primeira a mudar é a due diligence. O histórico fiscal continua importando, só que deixou de bastar. O comprador agora precisa modelar como o alvo atravessa a transição: cadeia de créditos, benefícios, regimes específicos, contratos de longo prazo e política de preços, e o que isso faz com EBITDA e caixa. “A due diligence passa a ter uma dimensão mais prospectiva”, diz Theodoro de Mattos, do Gaia Silva Gaede. A diligência parou de olhar só pelo retrovisor.

Sem jurisprudência consolidada, o risco fiscal vira prognóstico, não certeza, observa Daniel Moreti, do FMIS Law. O desenho da transição está dado, mas alíquota final, aproveitamento de créditos e capacidade de repasse ainda dependem de regulamentação.

Na falta de respostas, comprador e vendedor passam a negociar premissas, e a incerteza aparece na estrutura: desconto no preço, holdback, cláusula de ajuste, declarações e garantias mais detalhadas, earn-out e true-up de capital de giro. À medida que o Carf firmar entendimento sobre a CBS, o desconto por dúvida tende a cair.

O impacto não é uniforme, e a assimetria é o que alimenta o deal flow. Indústria, distribuição e cadeias longas tendem a ganhar com a não cumulatividade plena, aproveitando créditos sobre insumos, energia e logística, com reflexo positivo na margem. Serviços, sobretudo quem está no lucro presumido com PIS/Cofins cumulativo e ISS baixo, vão sentir a carga subir. Setor pressionado é setor que consolida.

O mercado de telecom é o laboratório. No Futurecom, Rodrigo Schuch, da Associação Neo, descreveu um mercado que prefere consolidar a voar sozinho: das 19 mil empresas com outorga de banda larga, só 700 passam de 5 mil assinantes, e cerca de 14 milhões de acessos sequer chegam à Anatel.

Some informalidade e crime, “tem cidades em que 50% da banda larga estão na mão de facções”, e um IVA de referência estimado em 27,91% que eleva a carga de quem nunca se preparou para o cashback. A própria Anatel admite o vetor: para o superintendente José Borges, a reforma pode ser “um catalisador do processo de consolidação”, com o split payment empurrando donos cansados para a venda.

A regra ainda não está pronta, mas o preço já se move. Na transição, quem projetar a própria carga chega à mesa valendo mais, e quem não projetar entrega o desconto na diligência.


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